ALEMS no combate ao Coronavírus

Agosto Verde: Em tempos de pandemia, ALEMS realça o combate à depressão

Imagem: Com a pandemia da Covid-19, as ações do Agosto Verde, mês de enfrentamento da depressão, tornam-se ainda mais importantes
Com a pandemia da Covid-19, as ações do Agosto Verde, mês de enfrentamento da depressão, tornam-se ainda mais importantes
18/08/2020 - 08:41 Por: Osvaldo Júnior   Foto: Luciana Nassar, Wagner Guimarães e arquivos pessoais


Arte: Luciana Kawassaki

Com a vida cinza parada no sinal vermelho, a esperança pinta o amanhã de verde. E é essa a cor que simboliza a campanha de enfrentamento da depressão, o “Agosto Verde”. Ações de combate e de prevenção à depressão são importantes em qualquer época, mas adquirem relevância especial neste período de pandemia, causada pela Covid-19. 

O Agosto Verde foi instituído pela Lei 5.088/2017, de autoria dos deputados Paulo Corrêa (PSDB) e Pedro Kemp (PT) e dos então deputados Paulo Siufi (PMDB), George Takimoto (PDT) e Antonieta Amorim (PMDB). A campanha é dedicada a “ações preventivas à integridade da pessoa, combatendo e prevenindo depressão, prostração ou desânimo, abatimento, esgotamento, estresse, tristeza, melancolia, ansiedade e outras doenças”.

“A sanção desta lei foi um passo importante na defesa da integridade da pessoa humana, em todas as esferas”, afirma o deputado Paulo Corrêa, presidente da Assembleia Legislativa de Mato Grosso do Sul (ALEMS). “Mesmo considerada pela OMS [Organização Mundial da Saúde] como o ‘Mal do Século’, a depressão ainda é um desafio para pacientes e médicos, e projetos como esse ajudam a lançar luz sobre o tema, especialmente em ações de conscientização e prevenção”, acrescenta o parlamentar.


Paulo Corrêa: "A Casa se preocupa com a saúde da população de MS" 

A ALEMS está atenta à seriedade e gravidade do problema. “A Casa de Leis tem se preocupado com a saúde da população sul-mato-grossense, aprovando projetos de saúde pública, criando leis que sensibilizam e conscientizam, e apresentando indicações”, lista o deputado Paulo Corrêa. Ele cita como exemplo a retomada do projeto Amigos do Parque, que “visa justamente oferecer um espaço e melhores condições para prática de exercícios físicos, o que diversos especialistas indicam para ajudar a combater a depressão”.

Além da Comissão Permanente de Saúde, que analisa proposições relativas ao tema, a Casa de Leis tem espaço especial para a discussão de políticas públicas relacionadas à saúde mental. Trata-se da Frente Parlamentar em Defesa da Saúde Mental e Combate à Depressão e ao Suicídio.


Antônio Vaz destaca a importância da Comissão de Saúde

O presidente da Comissão Permanente de Saúde, deputado Antônio Vaz (Republicanos), destacou a importância do Agosto Verde. “Estamos na grande campanha do Agosto Verde, de combate à depressão. E isso é muito importante, porque temos percebido que os casos de depressão no nosso estado têm crescido muito por causa da pandemia da Covid-19”, disse. Ele acrescentou que o papel da Comissão de Saúde é fundamental por contribuir para a efetivação de políticas públicas concernentes à saúde da população sul-mato-grossense.


Marçal Filho: "É preocupante o aumento de casos de depressão"

O deputado Marçal Filho (PSDB) considera que a Frente Parlamentar em Defesa da Saúde Mental e Combate à Depressão e ao Suicídio, a qual preside, ajuda a fomentar, na Casa, a elaboração de proposições que visam à promoção da saúde mental. Ele menciona, como exemplo, projeto, de sua autoria, que disponibiliza, nas escolas, psicólogos para atendimento de alunos e professores. “Há estudo que mostra que o maior problema dos profissionais da educação é este: o suporte psicológico”, afirmou.

O parlamentar enfatizou a necessidade de ações de combate à depressão neste período de pandemia. “Neste momento, estamos em campanha contra a depressão, através de nossas ações na Assembleia Legislativa ou mesmo fora dela, usando meios de comunicação, sempre fazendo gestão com o governo do Estado. Com a pandemia e a necessidade de isolamento social, aflora ainda mais este problema. Casos de depressão têm aumentado. Então, é uma preocupação muito grande”, pontuou.

Pesquisas de instituições públicas mostram os impactos da pandemia na saúde mental


Arte: Luciana Kawassaki

O enfrentamento da depressão e de outras doenças relacionadas à saúde mental neste ano tem importância especial, em decorrência da pandemia do novo coronavírus. Pesquisa realizada pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) em parceria com a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) mostrou que 40% dos entrevistados se sentiram, no período do levantamento, tristes ou deprimidos e 54%, ansiosos ou nervosos frequentemente.


Arte: Luciana Kawassaki

O estudo verificou, ainda, que as mulheres sofrem mais os impactos da pandemia no estado de ânimo. Enquanto 30% dos homens disseram que se sentem tristes ou deprimidos, essa parcela foi de 50% entre as mulheres. Entre elas, 60% ficam ansiosas ou nervosas com frequência e, no caso deles, o índice é de 43%.

A pesquisa mostrou também, entre outros dados, que 29% das pessoas passaram a ter problemas de sono e 16% pioraram problemas desse tipo depois da pandemia. Impactos econômicos também foram diversos conforme o grupo social: de modo geral, 55% dos entrevistados tiveram a renda reduzida e 7% ficaram sem rendimento. Considerando as pessoas com rendimento de até meio salário mínimo, os percentuais foram, respectivamente de 64% e 11%.

Outra pesquisa, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) em parceria com a Yale New Haven Hospital, nos Estados Unidos, indicou agravamento expressivo de problemas relativos à saúde mental durante a pandemia no Brasil.  Foram entrevistas 1.460 pessoas de 23 estados brasileiros em dois momentos, de 20 a 25 de março e de 15 a 20 de abril.

Nesse intervalo, os casos de depressão subiram de 4,2% para 8%, os de estresse agudo, de 6,9% para 9,7%, e os de crise aguda de ansiedade, de 8,7% para 14,9%, de acordo com o professor Alberto Filgueiras, do Instituto de Psicologia da Uerj, que coordena o estudo.

Isolamento, incertezas, ansiedade: como as mudanças causadas pela pandemia afetam a saúde mental 


Transformações bruscas impactam de várias formas na saúde mental, dizem psicólogos

Quebra da rotina, mortes, medo, isolamento social, falta de contato... Isso tudo que, de repente, despendeu-se, pesadamente, sobre todos, impacta na saúde mental. Para entender essas relações, a reportagem conversou com os psicólogos Adriano Luiz Pardo, Mariela Nicodemos Bailosa e Selma Lúcia da Costa Xavier.

“Somos seres essencialmente sociais e precisamos de trocas afetivas tanto quanto de água. Quando impedidos dessas relações ou severamente distanciados, sofremos um processo que a psicologia comportamental chama de privação de reforços positivos. Isso significa que perdemos grandes fontes de prazer, o que aumenta o nível de estresse, ansiedade e, às vezes, o aparecimento de humor deprimido”, explica Mariela.

Adriano acrescenta que a ruptura no cotidiano gerou, inicialmente, uma atitude de negação e, depois, medo e pânico. “Isso atinge em cheio a saúde mental, pois gera desequilíbrio e necessidade de mudança e adaptação, o que é vivido pela nossa psique como sofrimento e dor. Como diria [Carl Gustav] Jung, uma das maiores paixões humanas é a inércia”, afirma o psicólogo.

Em pessoas com predisposição a quadros de ansiedade, os impactos são maiores, de acordo com Selma Lúcia. Ela explica que a situação suscitada pela pandemia, como a falta de contato presencial, potencializa nessas pessoas “a depressão, síndrome de Burnout, transtornos de estresse pós-traumático, transtornos psicossomáticos, além de uso de substâncias como álcool e outras drogas”.

Mortes, medo, insegurança


Adriano: "A morte se tornou tema recorrente no meu consultório"

Não se trata de uma doença tão-somente. Trata-se de uma pandemia, com elevada velocidade de contágio e de mortes. Isso fragiliza a segurança existencial, gera incertezas quanto ao futuro e à vida. “Com a pandemia, a morte se tornou tema recorrente no meu consultório e penso que não seja diferente nos dos meus colegas”, observa Adriano.

O temor da morte é acompanhado da “incerteza do futuro, a impossibilidade de planejar e a impotência diante do imponderável”, conforme lista o psicólogo. “Isso vem causando aumento significativo do quadro de ansiedade. O golpe no nosso ego está sendo duro demais. Literalmente não sabemos como será o próximo domingo, qual novo decreto virá, se teremos trabalho amanhã, enfim a vida se tornou imprevisível demais”, considera.

Grupos vulneráveis


Mariela: "As mulheres têm sofrido com a violência"

A imagem do novo coronavírus como equalizador das diferenças, uma vez que “todos estamos no mesmo barco”, corresponde à realidade? Para Adriano Pardo, estamos, no máximo, no mesmo mar, que é a pandemia. “Alguns estão de iate, outros de barco, outros ainda, de transatlântico e muitos, a maioria dos brasileiros, apenas de jangada ou de colete salva-vidas”, metaforiza.

As várias diferenças tornam alguns mais vulneráveis ao contágio, ao agravamento da doença e à morte. “As pessoas mais pobres, em condições de vulnerabilidade, sem dúvida, são as mais expostas. Há, ainda, aqueles que têm comodidades e os idosos, que têm saúde mais debilitada”, menciona Adriano. “O isolamento social para a classe média e classe alta tem um significado, já para as periferias, onde as condições de moradia e conforto são muito mais limitadas, é uma outra experiência, muito mais difícil. Numa casa, onde moram oito ou dez pessoas, estar em casa já é uma aglomeração”, compara.


Selma: "Percebo-me mais sensível e amadurecida"

As mulheres também apresentam vulnerabilidades, como destaca Mariela. “As mulheres têm sofrido com a sobrecarga de trabalho (doméstico, cuidado das crianças, home office, trabalho externo) e com o aumento da violência doméstica”, cita.

A psicológica lista, ainda, outros grupos. “A população indígena e os quilombolas, que têm dificuldades no acesso a água, alimentos e assistência à saúde, famílias mais pobres, que sofrem com a ameaça da falta do sustento econômico, maior exposição nas ruas e transportes públicos e filhos sem acesso ou severas limitações às aulas online”, enumerou. Segundo Mariela, além desses grupos, pessoas, em especial crianças e adolescentes, com desenvolvimento atípico sofrem com a quebra de rotina.

Reflexos na vida de quem cuida

Os próprios profissionais da saúde sofrem, de forma especial, os impactos deste momento da pandemia em seus cotidianos.

“Tem aumentado a procura por psicoterapia. Alguns casos, precisei manter presencial e outros, estou atendendo on-line”, disse Mariela que teve de se organizar emocionalmente com as mudanças suscitadas pela pandemia. “Em home-office, tenho carga horária de 44 horas, além do trabalho clínico”, contou a psicóloga, que é mãe de um menino de seis anos e ainda cursa uma pós-graduação. “É inevitável não sentir angústia, medo. Por isso, é importante exercitar nossa resiliência, como a capacidade de enfrentar situações-problema”.

A máxima de se viver o presente se intensificou na vida de Selma Lúcia. “Percebo-me mais sensível e amadurecida quanto ao entendimento de que só temos o presente momento para viver e realizar todas as coisas”, afirmou. “O cansaço físico que sinto hoje, em razão da sobrecarga de trabalho, fica minimizado pelo desejo de cuidar melhor dos que precisam dos meus cuidados. Sinto, a cada dia, minha saúde fortalecida e desejosa de que isso acabe para poder usufruir um dia de descanso”, acrescentou.


Arte: Luciana Kawassaki

Cuidados com a saúde mental

E como as pessoas, de modo geral, podem cuidar da saúde mental neste tempo de Covid-19? Não há, conforme adverte Adriano, receita pronta quanto a esses cuidados, pois “cada um vive uma pandemia diferente”. Para cada pessoa, a pandemia “tem um significado individual e particular”, produzindo variadas formas de sofrer. É preciso, então, que cada um identifique o próprio sofrimento e maneiras de lidar com ele.

Independentemente das particulares, alguns comportamentos e práticas podem ser relevantes, em maior ou menor medida, para diferentes pessoas. Para Selma Lúcia, é fundamental “retirar o foco dos pensamentos catastróficos, eliminando ideia e sensação de desamparo”. Neste sentido, é importante evitar o excesso de informações, segundo reforça Adriano. “Informe-se o suficiente”, diz o psicólogo.

É recomendável, conforme Selma Lúcia, que as pessoas reinventem “formas e maneiras de relacionar-se, de trabalhar, e de participar de atividades religiosas, bem como desenvolver atividades físicas e culturais que tragam prazer, retirando assim toda a carga psíquica de pensamentos negativos”.

Para Mariela, é importante que a pessoa olhe com criatividade seu antigo prazer, como visitar amigos, ir ao cinema, viajar, dançar. De forma criativa, a pessoa pode garantir esses prazeres, mesmo com o distanciamento social. “Pode, por exemplo, fazer, com as crianças, uma sessão de cinema com pipoca e cabana na sala de casa”.

O distanciamento social não impossibilita o afeto. “Deve-se manter o isolamento físico, mas não o afetivo. A troca de afeto, nestes momentos é fundamental e ela não depende apenas do toque físico, podemos também tocar o coração do outro”, afirma Adriano, realçando a importância da prática da generosidade e a gentileza.

“Qualquer pessoa – enfatiza Mariela – é passível de apresentar sofrimento psíquico em alguma fase da vida, isso é humano”. Caso perceba necessidade, a pessoa deve procurar ajuda profissional. “Isso não precisa ser motivo de vergonha, pois nem sempre conseguimos esse equilíbrio sozinho”, informa.

Essa atenção à saúde mental é essencial, pois, conforme evidencia Selma Lúcia, “a saúde é uma composição de corpo, mente e espírito”. Trata-se, assim, da integridade da pessoa, de sua própria vida. “Quem cuida da saúde mental, cuida da vida”, resume Mariela.

Serviço:

Confira, na íntegra, as entrevistas com os psicólogos Adriano Luiz Pardo, Mariela Nicodemos Bailosa e Selma Lúcia da Costa Xavier.

Permitida a reprodução do texto, desde que contenha a assinatura Agência ALEMS.
Crédito obrigatório para as fotografias, no formato Nome do fotógrafo/ALEMS.